O nosso Natal
O dia 25 acordou soalheiro, luminoso e com uma temperatura bastante agradável. Estava frio mas nada do outro mundo (coisa rara por estas paragens onde os termómetros costumam andar pelos 6/7 graus). A Rafaela acordou com um misto de alegria e desilusão porque ainda não foi desta que conseguiu ver o Pai Natal. Andou num excitex que não se aguentava, fez-lhe uma espera junto à árvore, colocou os telemóveis e o tablet a filmar e só dizia: "É desta! Eu vou provar aos meus colegas que ele existe! Vou ser a primeira criança do mundo a ver o Pai Natal verdadeiro! Vou filmá-lo e mostrar a toda a gente que ele existe!".
Antes da meia noite fomos dar o nosso tradicional passeio e quando chegámos a casa os presentes já estavam debaixo da árvore. O Pai Natal cumpriu a sua tarefa, bebeu o leite, comeu as bolachas, levou a cenoura para as renas mas não deixou rasto nos vídeos. A pobre Rafaela ainda andou a correr a ver se o via mas nada! E foi aqui que percebermos que, por muito que nos custe, vamos ter que lhe contar a verdade. "O Pai Natal nunca me falhou mas desta vez desiludiu-me bastante! Tanto que eu lhe pedi para me deixar vê-lo! Não acredito que ainda não foi desta! Não acredito! O presente que eu mais queria era vê-lo!"
E de manhã, antes de darmos um pulo até ao jardim, chorou de desilusão. "Pensava que era desta mas agora só daqui a um ano é que posso tentar outra vez... um ano! Vou ter que esperar um ano mas não vou desistir! Vou já começar a pensar num plano para o apanhar! Será que ele se transforma em fumo para ninguém o ver? Como é que ele não ficou registado nos vídeos? Mas ninguém se consegue transformar em fumo, só os bonecos animados! Para a próxima não me escapa ou eu não me chamo Rafaela!"... e as lágrimas escorriam-lhe pela cara... e a desilusão sobrepôs-se à felicidade do momento e dos presentes que recebeu.
Enfim... deu-me pena, muita pena. Eu avisei-a mas ela nunca me deu ouvidos. Meteu na cabeça que o ia ver e mais nada. Eu bem lhe disse que ninguém no mundo o conseguia apanhar mas ela só me respondia: "Não percebo mamã! Estás sempre a dizer que nunca devemos desistir dos nossos sonhos e agora queres que eu desista de apanhar o Pai Natal? Estás doida? Eu não vou desistir!".
Mediante isto só temos uma hipótese: Deixar esfriar a coisa e contar-lhe a verdade. Vai custar-me imenso mas vai ter que ser. Não vejo outra alternativa.

















